As importações de lácteos seguem em ritmo acelerado em 2011. Até junho, o volume de leite e derivados que entraram no mercado brasileiro já equivalia 73,8% do que foi importado durante todo o ano de 2010.
De acordo com Mauricio Palma de Nogueira, da Bigma Consultoria, se este ritmo se mantiver, o Brasil poderá chegar ao final do ano com cerca de 1,12 bilhão de litros de lácteos importados. “Esse resultado foi observado apenas em 2002, quando as importações brasileiras ultrapassaram 1 bilhão equivalente litros de leite”, diz o analista.
“O ritmo das importações está entre os maiores dos ultimos 8 anos” afirma Vicente Nogueira, coordenador das câmaras temáticas de leite da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB). Para Nogueira, a situação é reflexo da perda de competitividade do mercado brasileiro, por causa da valorização do real.
Além da política cambial, que tem prejudicado a industria nacional de laticínios, o custo Brasil é apontado por Rodrigo Alvim, presidente da Comissão Nacional de Pecuária de Leite da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), como um grande entrave ao crescimento do setor. “Convivemos com uma carga tributária que consome 35% do faturamento e tarifas portuarias que estão entre as mais caras do mundo” afirma.
Para ele, o problema não é o preço do leite brasileiro, mas o fato de que a moeda brasileira está sobrevalorizada.
O aumento da demanda por produtos lácteos no mercado interno é que tem impulsionado o avanço das importações. Mauricio Nogueira pondera que, apesar do aumento das importações, o preço continua firme. “O avanço da importação não está impactando fortemente os ganhos do produtor”, garante.
Até maio, o índice de captação do Centro de Estudos e Pesquisas Avançadas (Cepea), mostrava um queda de 1,48% na comparação com o mesmo período de 2010. Alvim afirma que, graças ao mercado aquecido, a situação do produtor não está tão grave. “O consumo per capita atualmente é de 160 litros por ano. Entre 1994 e 2009, o consumo médio per capita estava entre 143 e 147 litros por ano” diz.
Déficit pode ser o maior da década
“Nos últimos 10 anos a produção brasileira cresceu 10 bilhões de litros, o que representa a atual produção de lácteos da Argentina” compara Vicente Nogueira. “A atividade leiteira tem condições de se manter em competitividade, mas precisa de políticas públicas para garantir que o Brasil volte a ser o grande exportador de lácteos”, conclui.
Alvim lembra que, no início da década, o Brasil sofria com a invasão de produtos lácteos provenientes da União Europeia e da Nova Zelândia. A partir de fevereiro de 2001, quando o Brasil conseguiu aplicar o direito antidumping contra esses países, as importações predatórias acabaram. Em 2004, o Brasil voltou a ter excedente para exportação e, em 2008, com um superávit de US$ 328 milhões no setor lácteo, o país figurou entre os 5 maiores exportadores.
Depois da crise financeira de 2009, o setor voltou a apresentar déficits. Foram US$ 98 milhões naquele ano, aumentou para US$174 milhões em 2010 e, até junho de 2011 já estava em US$ 216 milhões . “Este ano corremos o risco de ter um resultado pior que o registrado em 2000, quando o déficit chegou a US$ 357 milhões", afirma Rodrigo Alvim. “Diferente dos anos 90, quando o nossos algozes eram os países europeus, agora sofremos com as investidas dentro do próprio Mercosul” lamenta o representante da CNA.
No início desta semana, membros da cadeia produtiva do leite participaram de uma reunião com técnicos do Ministerio da Agricultura para mostrar a importância de ações de emergência para controlar a entrada excessiva de produtos lácteos dos países vizinhos.
Desde 2009, o Brasil mantém um acordo com a Argentina que limita a entrada de produtos lácteos daquele país a 3,3 mil toneladas de leite em pó por mês.
As negociações com o Uruguai são mais difíceis, porque a exportações de produtos lácteos está entre os principais itens da pauta daquele país. Segundo Alvim, sem um controle de importação, o volume de laticínios provenientes do Uruguai saltou de 20% para 55% do total importado pelo Brasil. "E não é apenas leite em pó, o Brasil tem importado queijo, leite UHT e soro", lembra.
Dados da Bigma Consultoria mostram que ao volume de leite em pó importado está em 58%, a quantidade queijo vindo de outros países já chega a 31%, manteiga representa 6% e soro de leite 3%.
O acordo com a Argentina expira no final de julho, a renovação - que além da cota de leite em pó, prevê a inclusão de uma cota também para os queijos - depende de um acordo com o governo uruguaio.
Fonte: Leite & Negócios
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