
Glauco Rodrigues Carvalho - Economista e pesquisador da Embrapa Gado de Leite - glauco@cnpgl.embrapa.br
Após um ano de 2009 difícil para a economia global e para o setor lácteo, os primeiros meses de 2010 indicaram um cenário mais favorável ao setor, seja ele no Brasil ou no âmbito mundial. O sentimento de que a crise financeira internacional estava perdendo força, juntamente com melhorias nas projeções de crescimento econômico global e de consumo das famílias refletiu positivamente sobre o setor. No âmbito de preços, o que se verificou nos últimos anos foi elevada volatilidade, com alta expressiva das cotações em 2007, queda em 2008 e nova alta em meados de 2009, se estendendo até o primeiro semestre de 2010. No entanto, os últimos números disponíveis sinalizam para queda de preços, o que nos leva a pensar um pouco sobre como será o segundo semestre para o setor. Antes porém, vale analisar o comportamento dos preços do leite, custos de produção, captação, entre outras informações que norteiam o cenário econômico conjuntural de leite e derivados.
Do ponto de vista do produtor, o movimento de alta nos preços em 2010 foi antecipado, com elevação ocorrendo já em fevereiro de forma rápida e intensa. Essa alta foi puxada inicialmente pelo mercado spot, aproveitando a necessidade dos laticínios diante de uma demanda robusta e em expansão. Houve ainda uma forte elevação nos preços do UHT, que possibilitou repasse aos produtores.
Em fevereiro os preços subiram 3,6% ante janeiro e a alta acelerou nos meses seguintes, melhorando a rentabilidade das fazendas e proporcionando uma administração do fluxo de caixa mais adequada. Mas essa melhoria de rentabilidade não veio apenas dos preços do leite. Ao longo dos primeiros meses de 2010 os custos de produção também trouxeram fatores positivos, com redução principalmente dos gastos com a alimentação do rebanho. A safra mundial de grãos em 2009/2010 foi muito boa, proporcionando a recomposição do estoques. Houve incremento na produção de soja nos países da América do Sul (liderados por Brasil, Argentina e Paraguai) e nos Estados Unidos. No caso do milho, a safra também foi alta e com boas indicações para a produção dos Estados Unidos no ciclo 2010/2011. O resultado dessa elevação de safra e recomposição de estoques foi uma razão entre preços do leite e preços da ração favorável para a produção de leite ao longo do primeiro semestre de 2010, possibilitando um fortalecimento da estrutura produtiva.
Pela Figura 1 pode-se realizar uma análise mais detalhada da situação do produtor de leite. Neste caso, pode-se observar a evolução do ICPLeite/Embrapa (em valores reais deflacionados pelo IGP-M), do índice de preço recebido pelos produtores de leite no Estado de Minas Gerais e do índice de relação de troca (IRT), tendo como mês-base abril/2006=100. O ICPLeite/Embrapa é um índice que mede a variação mensal nos custos de produção de leite e é calculado com base nos preços de uma cesta de insumos e serviços utilizados na produção.
O índice de relação de troca (IRT) é obtido pela razão entre o índice de preço recebido pelo produtor e o índice de custo de produção (ICPLeite). Neste contexto, um IRT maior do que 100 mostra que o produtor de leite encontra-se relativamente em melhor situação e indica que os preços recebidos pelo leite crescem acima dos custos. A linha horizontal refere-se a paridade e estabelece o limite entre a situação favorável/desfavorável para o produtor de leite em relação a base, estabelecida em abril/2006. Assim, sempre que o IRT se situar acima da paridade, o produtor encontra-se em situação favorável e sempre que o IRT estiver abaixo da paridade a situação é desfavorável.
De maneira geral pode-se identificar um período bom para o produtor ao longo de 2007 e início de 2008. Já em 2009, a situação econômica das fazendas piorou bastante, o que refletiu na baixa oferta de leite no país. Realmente foi um ano muito difícil e a situação econômica das fazendas foi favorável em apenas quatro meses dos doze existentes no ano. Finalmente, em 2010 o cenário tornou-se novamente favorável, com elevação dos preços do leite e recuo nos custos.

Figura 1. Índice de custo de produção, preço recebido e relação de troca (dados reais, deflacionados pelo IGP-M - mês base: abril/2006 = 100)
Mas o que essa relação de troca pode trazer de informação para melhorar o processo decisório na cadeia produtiva? Na realidade alterações na relação de troca implicam alterações na produção de leite, ou seja, na base da cadeia produtiva. Em economia, nos modelos de concorrência perfeita (em que não há barreiras a entrada de novas empresas) ou de concorrência monopolística (em que há algumas barreiras, mas são baixas) a melhora da rentabilidade setorial implica na atração de investimentos para aquele setor, consequentemente ocorre aumento da oferta e queda do preço, que tem sua intensidade balanceada pelo comportamento do consumo.
Aplicando essa lógica no mercado de leite, o que sabemos é que nos períodos em que ocorre aumento da rentabilidade, o produtor de leite se ajusta rapidamente, melhorando sua estrutura produtiva. Por outro lado, quando piora a rentabilidade ele reduz os investimentos na atividade e a produção desacelera. De fato, na euforia de 2007 e início de 2008 a produção de leite foi impulsionada por melhorias na relação de troca (Figura 2). Por outro lado, quando a relação de troca se tornou desfavorável, como ocorreu no final de 2008 e início de 2009, a captação de leite também registrou queda na comparação com o mesmo mês do ano anterior. Já a partir de janeiro de 2010, houve novo crescimento da captação, na esteira da melhoria da relação de troca. A última estatística de captação, publicada pelo Cepea, mostrou um aumento de 7% em junho de 2010 em relação a junho de 2009. Nos primeiros meses do ano esse aumento ficou ligeiramente abaixo de 5%.

Figura 2. Índice de captação de leite e Índice de relação de troca: crescimento em relação ao mesmo mês do ano anterior (%)
Mas, obviamente, o cenário do segundo semestre engloba variáveis que vão muito além da simples comparação entre relação de troca e captação. Essas variáveis, pelo contrário, são resultados de uma série de outras e devem provocar grandes emoções no mercado lácteo nos próximos meses.
Pelo lado da demanda, a boa notícia vem do consumo interno, que se mantém forte, na esteira do crescimento do produto interno bruto e da renda das famílias. No âmbito das exportações de lácteos, não há nada previsto no horizonte de curto prazo que altere o cenário deficitário. Ou seja, o saldo comercial deverá continuar negativo nos próximos meses.
Pelo lado da oferta, o que está ocorrendo no setor é baixa rentabilidade na indústria de laticínios, recuo de preços ao produtor, incremento de custos de produção (ração) e incertezas climáticas (fenômeno La Niña).
Os preços do leite ao produtor recuaram em junho, julho e devem continuar com essa tendência até pelo menos outubro (mas com um ritmo de queda menor). A dúvida que permanece é sobre a intensidade de queda nos preços do leite ao produtor.
No âmbito do índice de relação de troca, deve-se verificar uma piora ao longo do segundo semestre, criando um ambiente desfavorável a produção. A intensidade dessa piora no IRT será determinante no comportamento da captação de leite. Em princípio, acreditamos que ela não será muito intensa devido ao fato de que a demanda doméstica por leite e derivados está forte e tende a criar um piso nos preços do leite.
Já no front climático a preocupação é maior, não apenas sobre as pastagens (oferta de leite) mas também sobre a produção de milho e soja (custos). O fenômeno climático El Niño que atuava desde 2009 se enfraqueceu e, no lugar de águas aquecidas, já se observa o resfriamento das águas sobre o Oceano Pacífico equatorial, o que representa o início da instalação de um novo episódio de La Niña nos próximos meses e que deve se estender pelo menos até o verão de 2011. O fenômeno tem características opostas às do El Niño e se confirmado, as chuvas podem fazer falta aos produtores.
O fenômeno La Niña tem dois impactos bem caracterizados: (1) atrasa o retorno das chuvas no Sul, Sudeste e Centro-Oeste do Brasil; (2) reduz a incidência de chuvas e aumenta o risco de estiagens regionalizadas no verão no Sul do Brasil e também no Mato Grosso do Sul. Portanto, o retorno das chuvas este ano poderá sofrer atraso e ocorrer de forma irregular. Para piorar, as pastagens estão muito ruins e em grande parte do Brasil já não chove a 150 dias. Por fim, esse fenômeno climático poderá ter reflexos importantes sobre o mercado mundial de lácteos, caso afete países exportadores, como a Argentina e Uruguai, por exemplo. Ou seja, se confirmado o La Niña e dependendo da intensidade, o cenário internacional poderá se alterar rapidamente. Infelizmente, nesse mercado de clima o grau de incerteza é elevado, não sendo possível assegurar o real impacto de certos fenômenos. De todo modo, fica aí o alerta.
Mais recentemente, uma forte seca na França, Alemanha, Ucrânia, Austrália e especialmente, Rússia, comprometeu a safra de trigo de forma importante, levando a uma explosão das cotações do cereal (45% em um mês, entre início de julho e início de agosto). A Rússia, segundo maior exportador mundial de trigo, decidiu proibir as exportações, catalisando o movimento de alta no grão. Como o trigo é muito usado na ração bovina na Europa, o substituto imediato foi o milho. Assim, a alta do trigo foi parcialmente repassada para milho e em menor intensidade, também para a soja.
Em resumo, para o segundo semestre, do ponto de vista da demanda as notícias são boas. Já no caso da oferta, as incertezas são elevadas e pairam sobre três aspectos. O primeiro refere-se ao impacto da queda dos preços sobre o comportamento dos produtores (captação de leite). O segundo é sobre a intensidade do aumento nos custos de produção, que além das perdas econômicas, cria um efeito psicológico no meio rural. Por último, a variável climática será determinante no cenário lácteo e poderá gerar reflexos na produção de leite (condição das pastagens), nos custos (preços dos grãos) e nas cotações internacionais (impacto sobre países exportadores de leite). Dependendo da combinação destas variáveis poderemos, surpreendentemente, passar por momentos de dificuldade de oferta de leite ao longo do segundo semestre. Portanto, são esperadas grandes emoções no mundo lácteo ao longo dos próximos meses.