
Marcos Cicarini Hott – Pesquisador da Embrapa Gado de Leite - hott@cnpgl.embrapa.br
Alexander Machado Auad – Pesquisador da Embrapa Gado de Leite
Emilia Hamada – Pesquisadora da Embrapa Meio Ambiente
Márcio Malafaia Filho – Mestrando em Ecologia / UFJF
Letícia D’Agosto Miguel Fonseca – Bolsista Fapemig
Diversos fatores ou parâmetros ambientais são responsáveis, pela distribuição geográfica natural de cada espécie no Planeta, sejam elas vegetais, animais ou microorganismos. Dentre os diversos parâmetros estão a temperatura, CO2, radiação, umidade, precipitação, nutrientes e altitude, das quais a temperatura pode afetar sobremaneira as condições necessárias à vida, num ciclo que envolve territórios além de suas fronteiras geo-políticas, em termos de mudanças globais. Pode-se analisar espacialmente a variação de aspectos físicos tal como temperatura frente a faixas ou modelos de sobrevivência de determinadas pragas agrícolas obtidas por meio de ensaios de laboratório. Os cenários temporais de distribuição geográfica de organismos envolvidos nos problemas fitossanitários de forrageiras, usadas na alimentação de bovinos, podem ser construídos para subsidiar a tomada de decisão no longo prazo quanto a ações de planejamento e política de defesa agropecuária.
A identificação dos ambientes propícios ao desenvolvimento dos insetos-praga pode permitir o planejamento de ações preventivas e mitigadoras na condução de projetos no setor agropecuário, bem como subsidiar a formulação de estratégias empresariais e políticas públicas. Isto é possível com o estabelecimento de faixas climáticas e sua locação em mapas, mediante a modelagem digital das atuais condições de temperatura e CO2, bem como de cenário futuro, projetando a evolução dessas pragas ao longo do território nacional.
Neste contexto, foram organizadas as bases de dados de temperatura média para o clima de referência (1961-1990), obtidos do Climate Research Unit (CRU), bem como das projeções dos modelos climáticos globais centrados nas décadas de 2020, 2050 e 2080 para o Brasil, em termos de médias mensais do terceiro relatório do IPCC (Intergovernamental Panel on Climate Change). O IPCC define cenários SRES (Special Report on Emissions Scenarios) que compreendem famílias ou conjuntos narrativos, que consideram diferentes projeções de emissões de gases de efeito estufa, relacionando aspectos de desenvolvimento social, econômico e tecnológico, crescimento populacional, preocupação com o meio ambiente e diferenças regionais, denominados de principais forças condutoras. Os cenários servem então de base para que os modelos climáticos globais realizem as projeções quantitativas do clima do planeta no futuro. O cenário de altas emissões (A2) é considerado o cenário “pessimista”, com manutenção dos padrões de emissões observados nas últimas décadas, implicaria em chegar cerca de três vezes maior que as concentrações atuais; enquanto o cenário B2 é considerado o cenário de baixas emissões ou cenário “otimista”. Assim, elaborou-se uma malha de dados de temperatura para o Brasil, dos cenários A2 e B2, onde a partir das faixas de temperatura de sobrevida do pulgão amarelo consegue-se estabelecer sua distribuição no território brasileiro para os cenários atual e futuros.
Considera-se o pulgão amarelo (Sipha flava) como problema importante na forragicultura, com impacto econômico direto, pertencente à família Aphdidadae, a qual compõe um dos grupos mais importantes em todo o mundo, do ponto de vista da economia agrícola. O pulgão amarelo tem despertado a atenção dos pesquisadores, pelo fato que esses afídeos encontram-se amplamente distribuídos e estão associados a vários tipos de cereais, podendo causar danos em muitas culturas, tais como cana-de-açúcar, trigo, cevada, centeio e gramíneas forrageiras. Deste modo, esse inseto é um problema para o desenvolvimento de espécies forrageiras utilizadas para a alimentação do gado de leite. Assim, foram pesquisadas a sobrevivência do afídeo sob diferentes faixas de temperaturas e concluiu-se que a maior longevidade, bem como a maior esperança de vida para S. flava pode ser obtida das faixas de temperatura sob as quais foram expostas amostras em laboratório.
Para a elaboração dos mapas temáticos referentes aos estudos, utilizou-se as médias mensais de temperatura do IPCC. Estas médias mensais são divididas em 7 mapas que contêm a distribuição do inseto para cada cenário estimado. No primeiro conjunto de mapas, visualiza-se o cenário para o clima de referência atual, entre os anos entre 1961 e 1990. Para os outros conjuntos de mapas, se traz um prognóstico das médias nas décadas com centro em 2020, 2050 e 2080, sendo que cada um tem uma perspectiva otimista (o aquecimento global não será tão intenso) e o outro traz uma ótica pessimista (o aquecimento global trará modificações drásticas ao clima global). O SIG (Sistema de Informações Geográficas) foi utilizado na separação das classes de temperatura e na confecção dos mapas finais.
Na Figura 1, o cenário atual para o Sipha flava se mostra bem favorável ao inseto, o qual, pelos dados médios de temperatura do período, ele se distribui potencialmente por todo o território, notadamente nas porções central e meridional do país. Na Figura 2 a espacialização para a situação A2 para o cenário em 2020 no que tange ao inseto-praga Sipha flava, mediante uso dos resultados do modelo / relatório IPCC. Observam-se, pelo mapa, que se desenham para 2020 regiões sazonais características, com a maior possibilidade de ocorrência transitando entre as regiões sudeste nos meses predominantemente com temperaturas médias mais altas, e Centro-oeste nos meses que apresentam temperatura média mais baixas. Nas Figuras 3 até 7, verifica-se que para as situações A2 e B2 para os anos em questão, sempre apresentam uma situação favorável para o Sipha Flava em parte das regiões sudeste/sul/centro-oeste, mas reduzindo-se ao longo do tempo, bem como a ampliação das áreas desfavoráveis ao inseto em quase todo o território, tanto em A2 como em B2. Ou seja, para o S. flava, a situação de aumento na temperatura diminui significativamente a sua condição de sobrevivência. Outras variáveis poderão ser consideradas posteriormente com o objetivo de refinar os resultados.

Figura 1 – Favorabilidade à sobrevivência e desenvolvimento do inseto-praga Sipha flava (pulgão amarelo), para o período entre 1961 a 1990.

Figura 2 – Favorabilidade à sobrevivência e desenvolvimento do inseto-praga Sipha flava para os cenários mensais para 2020 em A2.

Figura 3 – Cenários mensais para 2020 em B2 do inseto.

Figura 4 – Cenários mensais para 2050 em A2.

Figura 5 – Cenários mensais para 2050 em B2.

Figura 6 – Cenários mensais para 2080 em A2.

Figura 7 – Cenários mensais para 2080 em B2, quanto ao inseto-praga Sipha flava.
Referências
OLIVEIRA, A.O.; SOUZA B.; AUAD A.M.; SILVA D.M.; SOUZA L.S.; CARVALHO C:.A.Desenvolvimento e Reprodução de Sipha flava (Forbes) (Hemiptera: Aphididae) em Diferentes Temperaturas. Neotropical Entomology, Piracicaba 38(3):311-316, 2009
OLIVEIRA, S.A.; AUAD A.M.;FERREIRA, R.B.; SOUZA L.S.; BRAGA, A.L.F.;AMARAL, R.L.: Fertilidade de Sipha Flava (FORBES, 1884) Alimentados em Capim-Elefante em Diferentes Temperaturas In: SOCIEDADE DE ECOLOGIA DO BRASIL, Caxambu, Anais do VIII Congresso de Ecologia do Brasil, Caxambu, 2007
GHINI, R.; HAMADA E.; GONÇALVES R.R.V, GASPAROTTO, L.; PEREIRA J.C.V.: Análise de Risco das Mudanças climáticas globais sobre a Sigatoka-negra da bananeira no Brasil. Fitopatologia Brasileira 32:197-204. 2007.
IPCC. The SRES emissions scenarios: the IPCC Data Distribution Centre. Disponível em: <http://sedac.ciesin.columbia.edu/ddc/sres/index.html>. Acesso em 15 de Março de 2010