Relevância de temas relacionados à qualidade do leite para as indústrias de laticínios brasileiras

 

Letícia Caldas Mendonça - Analista da Embrapa Gado de Leite

Maria Aparecida Vasconcelos Paiva e Brito - Pesquisadora da Embrapa Gado de Leite

Carla Christine Lange  -  Pesquisadora Embrapa Gado de Leite

 

No Brasil, o tema “Qualidade do Leite” vem sendo frequentemente debatido nos últimos dez anos, devido, principalmente, à implantação da Instrução Normativa n° 51, de 18 de setembro de 2002 (IN 51), do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Brasil, 2002). A IN 51 está em vigor no País desde julho de 2002 e estabelece os requerimentos técnicos para o leite cru.

Compete ao produtor de leite vender à indústria de laticínios uma matéria-prima de excelente qualidade bem como compete à indústria de laticínios beneficiar o leite e vender ao consumidor um produto lácteo seguro, nutritivo e saboroso. Para que este processo seja eficaz, os estudos relacionados à melhoria da qualidade do leite devem ser contínuos. Nesse sentido, é importante conhecer a demanda em pesquisas relacionadas ao tema. Segundo Brandão (2006), qualidade é o fator de decisão básico mais importante para a garantia consistente da confiança dos clientes nos produtos de uma determinada marca. Por isso, conhecer o que as indústrias de laticínios necessitam para obter e processar leite e derivados de alta qualidade é condição essencial para o crescimento da atividade leiteira e laticinista do País.

Com o objetivo de conhecer tais necessidades, foram enviados questionários a 132 indústrias de laticínios das regiões Sul, Sudeste e Centro-oeste do País, através de email e pelo correio. Buscou-se conhecer as demandas das indústrias sobre diversos temas relacionados à qualidade do leite e também quais os itens considerados importantes, dentre uma lista de aspectos relevantes à obtenção de leite de alto padrão de qualidade, de maneira que as ações de pesquisa fossem direcionadas ao atendimento dessas necessidades. As respostas foram recebidas entre os meses de abril e junho de 2009.

As perguntas do questionário trataram dos principais problemas relacionados à produção de leite com qualidade. Foi solicitado notas de 0 a 3 para cada item,  sendo a nota 0 para o item de menor importância e a nota 3 para o item de maior importância. Os dados foram analisados de forma descritiva.

RESULTADOS

Das 132 indústrias contactadas apenas 15 indústrias responderam, o que corresponde a 11,4% do total. Destas 15 indústrias, oito (57, 1%) adotam programas de pagamento do leite pela qualidade, que incluem bonificação para contagem de células somáticas (CCS), contagem total de bactérias (CTB), teores de proteína, gordura e sólidos totais. Os resultados são mostrados na Tabela 1, de acordo com a importância dada a cada item.

 

Todas as indústrias consideraram o item “alta CTB” de maior importância, recebendo nota 3 de todas elas. Os itens “falta de adoção de procedimentos adequados na ordenha” e “alta CCS” receberam nota 3 de 92,9% das indústrias, seguidos de “fraude no leite”, “resíduos de antimicrobianos”, “resíduos de outros produtos químicos” e “falta de compromisso do produtor quanto à produção de leite com qualidade”, que receberam nota 3 de 85,7% das indústrias.

  

Tabela 1. Porcentagem de indústrias que consideraram os itens citados como de maior importância.

Os itens relacionados ao rendimento e processamento dos produtos lácteos, como “baixo teor de sólidos totais”, “baixo teor de proteína”, “baixo teor de gordura”, “reduzida vida de prateleira” e “problemas no processamento” foram considerados de maior importância pela maioria das indústrias que pagam pela qualidade. As indústrias que não pagam pela qualidade do leite deram maior importância aos itens relacionados às práticas ligadas ao produtor de leite, como “leite ácido”, “leite positivo ao teste do alizarol”, “uso de vasilhames em condições inadequadas de higiene” e “falta de compromisso do produtor”.

Os itens relativos à infraestrurura, como “infraestrutura de estradas deficiente” e “infraestrutura de energia elétrica deficiente” foram considerados de grande importância pela maioria das indústrias que pagam pela qualidade, mas pela minoria das que não pagam. O grande interesse na questão de estradas e energia elétrica em más condições de uso pode ser reflexo da preocupação com a refrigeração adequada e tempo de permanência do leite na propriedade, até a coleta pelo veículo transportador. Sabe-se que o leite, como um produto perecível, pode ser armazenado no prazo máximo de 48 horas, se mantido em temperatura de 2 a 4°C. Caso contrário, o crescimento e a multiplicação de bactérias podem comprometer a qualidade desta matéria-prima (Pinto et al., 2006).

Um percentual baixo de indústrias que pagam (37,5%) e que não pagam (33%) pela qualidade do leite considerou importante o item “falta de pesquisas de como diminuir a CCS e a CBT”. Esta resposta sugere que o conhecimento disponível no momento é suficiente para atingir níveis aceitáveis de CCS e CBT. Portanto, ações de transferência de tecnologia e incentivos praticados pelas indústrias através de bonificações pela redução da CCS e CBT são de extrema relevância e podem levar ao alcance desses níveis.

Os itens considerados de grande importância entre as indústrias que adotam pagamento pela qualidade foram diferentes daqueles considerados pelas indústrias que não adotam, sugerindo que a implantação de programas de pagamento de leite por qualidade pode criar novas formas de relação entre produtores e indústria, valorizando a produção e a qualidade do leite.

 

AGRADECIMENTOS

Às indústrias de laticínios que se dispuseram a colaborar com a pesquisa e responderam prontamente ao questionário.

 

LITERATURA CONSULTADA

BRASIL. Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento. Instrução Normativa n° 51, de 18 de setembro de 2002. Regulamento Técnico de Produção, Identidade e Qualidade do Leite Tipo A, do Leite Tipo B, do Leite Tipo C, do Leite Pasteurizado e do Leite Cru Refrigerado e o Regulamento Técnico da Coleta de Leite Cru Refrigerado e seu transporte a Granel. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 18 set. 2002. Secção 3. Disponível em: <http://www.agricultura.gov.br/ das/dipoa/in51.htm>. Acesso em: 10 mar. 2009.

BRANDÃO, S. C. C. Fundamentos da busca pela qualidade na indústria. In: Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006. p. 291-312.

PINTO,C.L.PANDÃO, S. C. C. Fundamentos da busca pela qualidade na indústria. In: Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006. p. 291-312..

PINTO, C. L. O.; MARTINS, M. L.; VANETTI, M. C. D. Qualidade microbiológica de leite cru refrigerado e isolamento de bactérias psicrotróficas proteolíticas. Ciência e Tecnologia de Alimentos, Campinas, v.26, n.3,  2006.