Biocombustíveis e os preços dos alimentos


Glauco Carvalho – Economista MSc, Pesquisador da Embrapa Gado de Leite

glauco@cnpgl.embrapa.br

 

A discussão entre a produção de alimentos versus energia vem ganhando força, sobretudo devido a disponibilidade cada vez mais limitada de recursos naturais, como terra e água, e os impactos altistas nos preços de commodities como milho e óleos vegetais. Na edição de 06 de dezembro, a revista britânica The Economist trouxe em seu editorial duras críticas à política de subsídios ao etanol à base de milho, que seria um dos principais responsáveis pela alta de preço dos alimentos no mundo. Em determinado momento coloca-se a frase: “encha o tanque de um carro utilitário esportivo com etanol e você terá gasto milho suficiente para alimentar uma pessoa por um ano inteiro". E essa não foi a primeira vez que a revista tocou nesse tema.

 

A participação dos biocombustíveis na matriz energética mundial é próxima de 1% mas os investimentos nessa área estão acontecendo de forma expressiva. Além disso, as perspectivas de esgotamento de fontes energéticas de origens fósseis, com o caso do petróleo, reforçam as políticas energéticas dos países para essas novas fontes renováveis.

 

Em 2006/2007 a utilização de milho para produção de etanol nos Estados Unidos foi de aproximadamente 83 milhões de toneladas ante 55 milhões em 2005/2006. Para 2007/2008 estima-se o direcionamento de 126 milhões de toneladas para este fim, o que equivale a cerca de 1/3 da colheita, conforme o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos.

 

Na Europa a produção de biocombustíveis também avança rápido. Em 2006 a produção de biodiesel atingiu cerca de 4,9 milhões de toneladas. Para 2007 a capacidade de produção está em 10,3 milhões de toneladas. Além disso, estudo da OCDE-FAO mostra que a produção de etanol também tende a crescer na Europa nos próximos anos, superando 10 bilhões de litros em 2016. Para tanto, estima-se a utilização de 18 milhões de toneladas de trigo e de 5 milhões de toneladas de milho como matérias-prima.

 

Questões ideológicas a parte, o fato é que os preços dos alimentos estão registrando forte alta em todo o mundo, não apenas pelo crescimento econômico e problemas climáticos, mas também pelo fato que importantes lavouras utilizadas para a produção de biocombustíveis são também fontes de produção de alimentos. Essa inflação de alimentos deve penalizar especialmente os países mais pobres, em que a alimentação tem peso elevado no orçamento das famílias.

 

Esse é um fenômeno novo nesse vigoroso ciclo de crescimento da economia global, em que mais e mais pessoas passaram a se alimentar melhor e viver com mais saúde. Isso é verdade no Brasil, mas é verdade também em outros países populosos onde vivem muitas famílias pobres. Entre 2000 e 2006, os preços das commodities agrícolas subiram cerca de 50%, mas a maior valorização ocorreu após 2003, quando os preços do petróleo iniciaram movimento de elevação. Em 2007 a alta nos preços dos alimentos foi visível. A inflação de alimentos no Brasil no acumulado de 12 meses até novembro foi de 9,0%. A Figura 1 ilustra o comportamento dos preços de grãos, oleaginosas e petróleo, mostrando que no período recente a elevação dos preços do petróleo foi acompanhada pelos preços internacionais dos alimentos.

 

                     Figura 11 – Índice de preços internacionais de alimentos e preço do petróleo

 

A utilização de trigo, beterraba e milho para produção de etanol torna-se questionável quando se analisa seu balanço energético. Enquanto a razão entre energia contida no combustível/energia fóssil usada para produzi-lo chega a 8,2 na cana-de-açúcar, na beterraba e no trigo é de 2 e no milho, de apenas 1,4. Em termos de produtividade, enquanto a cana no Brasil rende até 7.000 litros por hectare, o milho nos Estados Unidos retorna pouco mais de 3.000 litros por hectare e o trigo na União Européia, apenas 2.500 litros/hectare. Talvez a política mais coerente fosse de importação de etanol brasileiro, mas para isso torna necessário mexer com toda a política comercial e de subsídio da Europa e, principalmente, dos Estados Unidos.

 

Tem-se no Brasil, inúmeros projetos em curso de investimento em usinas para produção de etanol a partir da cana-de-açúcar. As previsões indicam um total de 412 plantas em 2012 ante 335 existentes em 2006. Na área de biodiesel, houve a regulamentação do setor por meio da Lei 11.097/2005 que estabeleceu adição de 2% de biodiesel no diesel em 2008 passando para 5% a partir de 2013.

 

O Brasil possui disponibilidade de terras para se arar futuramente, mas seu desenvolvimento depende de grandes investimentos em estradas e outras infra-estruturas. Além disso, pode provocar outros riscos como a destruição de florestas, que já é motivo de restrição comercial com países mais exigentes.

 

Finalmente, o desenvolvimento da agroenergia abre possibilidades que não devem ser menosprezadas, embora envolvam riscos, como a delicada questão de uso de alimentos para fins energéticos. Todavia, não se pode atribuir exclusivamente à agroenergia a paternidade de desequilíbrios sociais – particularmente de fome que também não depende somente dela para ser erradicada, mas sim de uma política mundial de segurança alimentar que preserve as necessidades humanas em primeiro lugar. Mas a inflação de alimentos preocupa e é autodestrutiva na medida em que poderá reduzir a expansão da demanda através de dois canais. Primeiro, a medida que corrói a renda das famílias mais pobres, reduz a demanda de alimentos e demais bens. Segundo, se a inflação persistir, poderá haver movimentos de elevação de taxas de juros nos bancos centrais, a fim de preservar a estabilidade de preços – como já está acontecendo na China e em outros países como Chile e México.

 

Portanto, acompanhar e monitorar a discussão em torno da agroenergia e dos preços dos alimentos é fundamental para o setor lácteo. Inclusive no âmbito dos preços internacionais de leite e derivados, além da ração.

Esta é a edição nº 14 do informativo eletrônico, Panorama do Leite, de 28 de dezembro de 2007, uma publicação mensal de responsabilidade do Centro de Inteligência do Leite CILeite, criado em parceria entre a Embrapa Gado de Leite e a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais – Seapa. Embrapa Gado de Leite – Chefe-geral: Paulo do Carmo Martins, Chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento: Pedro Braga Arcuri, Chefe-adjunto de Comunicação e Negócios: Marne Sidney de Paula Moreira e Chefe-adjunto de Administração: Luiz Fernando Portugal Silva. Editora Geral: Rosangela Zoccal. Coordenador de Jornalismo: Rubens Neiva. Redação: equipe técnica do CILeite. Colaboração: Vanessa Maia A. de Magalhães. Projeto gráfico: Marcella Avila. Editoração eletrônica: Angela de Fátima A. Oliveira e Leonardo Fonseca. Estagiário: Rafael Junqueira.

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