Sistemas de produção de leite no Brasil


Lorildo A. Stock e Alziro V. Carneiro — Pesquisadores da Embrapa Gado de Leite - stock@cnpgl.embrapa.br

 

As estatísticas oficiais sobre o número de produtores de leite existentes no Brasil são do ano de 1996. Mas, as evidências são de que a produção do leite do País esteja migrando de sistemas menos produtivos para sistemas de produção compostos por animais com maior produtividade e envolvendo processos tecnológicos mais sofisticados.

 

Ainda que, na média, a produtividade do rebanho brasileiro está crescendo pouco, os rebanhos mais produtivos vêm apresentando significativo crescimento, em termos da participação na produção total de leite. Estima-se que, somente as 30 mil fazendas mais especializadas (2,3% do total) estejam produzindo 44% do leite total do país.

 

Crescimento da produção

 

A partir de 2000, a taxa de crescimento da produção brasileira de leite, de 4,6% ao ano, tem sido maior do que a taxa de crescimento do consumo doméstico, que é de 3,5% ao ano. Neste artigo, discutem-se mudanças estruturais ocorridas no segmento de produção, com relação ao número dos produtores, tamanho da propriedade, produtividade e características dos modelos de produção.

 

Como se chegou aos números?

 

Dados do Censo Agropecuário de 1996, agrupados em oito estratos de produção e número de produtores de leite, foram utilizados para estimar o número médio de vacas por fazenda. O que se conseguiu na prática, foi uma distribuição do total de vacas ordenhadas do país nos oito estratos, de maneira que o volume de leite pudesse ser produzido pelo número de produtores levantado no Censo de 1996.

 

Em seguida, por meio de modelos de simulação, calculou-se o número de propriedades necessárias para atender o volume de leite produzido em cada um desses oito estratos em 2005. Finalmente, os resultados foram reagrupados em quatro estratos caracterizados em termos da estrutura de produção e de acordo com níveis específicos de produtividade.

Mudanças estruturais entre 1996 e 2005

 

As mudanças estimadas no período de 1996 a 2005 estão apresentadas nas Tabelas 1 e 2 e foram principalmente relacionadas a:

(1) Produção: aumento da participação dos sistemas de maior produção e produtividade por vaca, em detrimento daqueles modelos de menor produtividade (Figuras 1a e 1b);

  • <4 litros/vaca/dia: representativo de mais de 50% do leite produzido em 1996, estimou-se que participa com menos de 20% da produção agregada de 2005;

  • 4-7 litros/vaca/dia: estrato de transição, cuja participação na produção agregada não variou significativamente no período;

  • 7-12 litros/vaca/dia: a participação percentual mais do que dobrou no período, passando de 13% para 37%; e

  • >12 litros/vaca/dia: a participação passou de 2% para 8%.

(2) Número de produtores: Crescimento na participação do número de produtores nos dois estratos de maior produtividade (Figuras 2a e 2b);

  • <4 litros/vaca/dia: caracteriza o maior contingente de produtores de leite do Brasil, estimado em quase 90% dos produtores;

  • 4-7 litros/vaca/dia: passou de 5% para 8% no período. Provavelmente, este incremento foi devido ao aumento da produtividade obtida pelos produtores que estavam no estrato anterior, em 1996;

  • 7-12 litros/vaca/dia: passou de 0,5%, em 1996, para 2,2% (estimado em 28 mil), em 2005; e

  • >12 litros/vaca/dia: de 42 produtores contabilizados pelo Censo de 1996, estima-se que tenham sido aproximadamente 1.500, em 2005.

(3) Número de vacas: Na média, a produtividade do rebanho brasileiro está crescendo pouco. Entretanto, os rebanhos mais produtivos vêm apresentando significativo crescimento, em termos da participação na produção total de leite (Figuras 2a e 2b);

  • 7-12 litros/vaca/dia: a participação percentual dessa categoria de vacas ordenhadas passou de 5% (estimado em 826.000), em 1996, para 14% (estimado em 2,9 milhões), em 2005; e

  • >12 litros/vaca/dia: em 1996, esta categoria foi estimada em 69 mil, e em 2005, e de 400 mil (2% do total), um crescimento de quase seis vezes nos últimos 10 anos.

Tabela 1. Estimativas de produção e número de fazendas produtoras de leite do Brasil, em 1996, segundo quatro estratos de produtividade.

Tabela 2. Estimativas de produção e número de fazendas produtoras de leite do Brasil, em 2005, segundo quatro estratos de produtividade.

Modelos de sistema

 

Apenas pequeno número de fazendas mais produtivas, estimadas em 1.500, é responsável por 8% da produção de leite do País (Tabela 2 e Figura 2). No geral, os estratos de maior produtividade apresentam pequena participação percentual do número de produtores, porém com significativa participação na produção total.

 

Indicadores da estrutura do custo de produção típica de modelos de produção vigentes no estado de Minas Gerais estão apresentados na Tabela 3. Os quatro estratos podem ser descritos, quanto às seguintes caraterísticas de produção:

  • Produção extensiva – Fazenda com menos de 30 vacas; produtividade menor que 4 litros por vaca (total) por dia; produção diária por fazenda menor que 100 litros; fornece apenas sal comum; pasto como base alimentar do rebanho, com baixa capacidade de suporte e sem suplementação de forragem no cocho. Pela baixa produtividade das pastagens, a terra representa mais de 60% do capital imobilizado. A relação entre o número de vacas em lactação e o rebanho de vacas é menor que 50%. Juntos, os itens mão-de-obra e reposição do capital representam 50% do preço recebido pela venda do leite. O custo operacional total, em geral, fica acima do preço bruto recebido, não remunerando adequadamente a mão-de-obra familiar ou reposição do capital.

  • Produção semi-extensiva – Em geral, possuem entre 30 e 70 vacas, com produtividade entre 4 e 7 litros por vaca e produção diária entre 100 e 400 litros de leite. O sistema de alimentação é composto por pastagem, com capacidade mediana de suporte, e suplementação com forragem picada no cocho e fornecimento de alimento concentrado no inverno ou estação seca. Em muitos casos a suplementação é realizada durante todo o ano. O custo operacional total é próximo de 100% do preço bruto recebido, não remunerando adequadamente o capital investido.

  • Produção especializada – Fazendas usualmente com número de vacas variando entre 70 e 200, produtividade entre 7 e 12 litros/vaca/dia e com produção de leite da propriedade variando entre 400 e 2.000 litros por dia. O sistema de alimentação e manejo utiliza tecnologias, e na maioria das vezes é composto de pastagem adubada e suplementação com cana-de-açúcar ou silagem, e concentrados. O custo operacional tem participação entre 80 e 85% do preço recebido pela venda do leite.

  • Produção intensiva – Fazendas, via de regra, com mais de 200 vacas, produtividade superior a 12 litros por vaca por dia e produção diária superior a 2.000 litros. Todo alimento é fornecido no cocho, durante o ano inteiro. O custo operacional total tem uma participação entre 80 e 85% do preço bruto do leite.

Tabela 3. Estrutura do custo de produção típica para modelos de sistemas de produção do estado de Minas Gerais, 2006.

Na falta do Censo...

 

Estimou-se que somente 2,3% das fazendas mais especializadas (aproximadamente 30 mil) produzam 44% do leite total no país. Mais de 1 milhão de produtores (aproximadamente, 90% do total), produzem menos de 20% do leite total. Ou, que 80% do leite produzido no Brasil, provêm de 11% dos produtores.

 

A rentabilidade dos sistemas de produção de leite do país está migrando de sistemas menos produtivos para sistemas de produção compostos por animais de maior produtividade e envolvendo processos tecnológicos mais sofisticados.

 
Figura 1. Estimativas de produção total do leite do Brasil, em 1996 e 2005, segundo quatro estratos de produtividade (litros/vaca/dia).

 

Figura 2. Estimativas do número total de vacas produtores de leite do Brasil, em 1996 e 2005, segundo quatro estratos de produtividade (litros/vaca/dia).

Esta é a edição nº 14 do informativo eletrônico, Panorama do Leite, de 28 de dezembro de 2007, uma publicação mensal de responsabilidade do Centro de Inteligência do Leite CILeite, criado em parceria entre a Embrapa Gado de Leite e a Secretaria de Estado de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais – Seapa. Embrapa Gado de Leite – Chefe-geral: Paulo do Carmo Martins, Chefe-adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento: Pedro Braga Arcuri, Chefe-adjunto de Comunicação e Negócios: Marne Sidney de Paula Moreira e Chefe-adjunto de Administração: Luiz Fernando Portugal Silva. Editora Geral: Rosangela Zoccal. Coordenador de Jornalismo: Rubens Neiva. Redação: equipe técnica do CILeite. Colaboração: Vanessa Maia A. de Magalhães. Projeto gráfico: Marcella Avila. Editoração eletrônica: Angela de Fátima A. Oliveira e Leonardo Fonseca. Estagiário: Rafael Junqueira.

Para não receber mais este newsletter do Centro de Inteligência do Leite. Clique aqui